Os Segredos que Guardamos | Resenha


"Eles tinham seus satélites, mas nós tínhamos seus livros. Na época, acreditávamos que livros podiam ser armas — que a literatura podia mudar o rumo da história."

Ei! Tudo bem?
Espero que sim :)

Hoje conversaremos um pouquinho sobre um lançamento de 2020 da Editora Intrínseca. O escolhi para resenhar porque é um romance histórico, mas sua base é completamente real, poucos pontos ficcionais foram adicionados e, por isso, Os Segredos que Guardamos foi uma das melhores surpresas que eu já tive. 

Os Segredos que Guardamos - Lara Prescott
Sinopse: Inspirado em uma missão real da CIA durante a Guerra Fria, Os segredos que guardamos mostra, de maneira romanceada, como a Agência de Inteligência americana apostou em Doutor Jivago, uma das obras-primas do século XX, para mostrar aos soviéticos o poder de mudança da literatura. O plano era simples: imprimir no exterior Doutor Jivago em russo e contrabandear exemplares da obra que teve sua publicação proibida na União Soviética por ir contra a ideologia do Estado. Para tanto, a experiente e glamorosa espiã americana Sally Forrester deve treinar a novata Irina, uma simples datilógrafa da Agência, a fim de infiltrar o texto no país natal de seu autor, Boris Pasternak, vencedor do Prêmio Nobel com esta obra, porém obrigado por seu governo a rejeitá-lo. Apesar de todo o potencial revolucionário, Doutor Jivago é também uma brilhante história de amor. A inspiração por trás de Lara, a icônica heroína da trama, é Olga Ivinskaia, musa de Pasternak. Os dois mantiveram um caso por décadas, uma relação intensa que sobreviveu à passagem do tempo, às ameaças de um regime autoritário e até aos anos de Olga em um gulag. Assim, mulheres de ambos os lados da Cortina de Ferro protagonizam essa obra que mostra que, embora a história seja escrita pelos vencedores, é nos bastidores que o destino do mundo é forjado. Amantes, espiãs, datilógrafas. Fortes e corajosas, essas personagens ganham vida nessas páginas e são exemplos de que determinados segredos não devem ser guardados.

Como vocês já estão acostumados, direi novamente que não sei por qual parte começar, porque em minha cabeça essa resenha se abre de diferentes formas e se torna extremamente complexa. Por isso, digo já de antemão que meu plano é separar ficção de fatos históricos, em breve vocês terão acesso a uma postagem só sobre o que estava acontecendo naquele período. Hoje, porém, vamos trocar apenas sobre a ficção nessa obra feminina. 

E digo feminina porque é o que ela é. A história é narrada por mulheres fortes, independentes e que querem conquistar seus meios. O livro é dividido de duas formas, em lado Ocidental, onde temos as datilógrafas, Irina e Sally, e lado Oriental, onde a União Soviética predomina com o autor de Doutor Jivago e sua amante, Olga Ivinskaia. E é assim que essa resenha também vai ser dividida. 


Oriente (1949-1961)
Com a União Soviética como plano de fundo, conhecemos logo no primeiro capítulo, Olga Ivinskaia, uma mulher jovem, apaixonada, mãe de dois filhos e conhecida como a amante de Boris Pasternak, grande escritor do século XX. Ela é a inspiração por detrás de Lara, personagem feminina na obra Doutor Jivago, e é por isso que quando ainda mal a conhecemos, ela é levada para um gulag. 

É na miséria, na dor, no sofrimento de Olga que conhecemos quem ela realmente é, e é impossível não se apaixonar pela sua força e coragem. A mesma se nega a contar qualquer detalhe sobre a obra revolucionária que seu amor, Boris, há escrito. 

Dessa forma temos, o que é para mim, a melhor parte do livro inteiro, a carta de Olga de dentro da gulag. Sua dor sai de suas palavras, transborda pelas páginas de Os Segredos que Guardamos e ainda tão no início dessa história. 

Boris acaba se tornando mais um personagem secundário que tenta, até chegar nas mãos de Feltrinelli, a publicação de Doutor Jivago. Com Olga ao seu lado, ele cai completamente e percebemos que, na verdade, nessa história revolucionária, Boris apenas escreveu, Olga quem protagonizou. 

Ocidente (1956-1961)
Provavelmente o lado mais complexo do livro, porque temos diversas personagens e cada uma com sua particularidade, mas vamos focar nas que realmente são heroínas. 

Seria então impossível não começar por Irina. 
A personagem, que tem raízes soviéticas, consegue um emprego como datilógrafa na Agência de Inteligência americana, o que a traz diversos questionamentos, pois ela fora contratada para um emprego cujo tem zero experiências e não parece ter vocação para adquirir. 
Porém, Irina logo percebe que não está ali para ser como as outras meninas da datilografia, ela tem uma função que é completamente secreta: ser uma espiã. É Irina quem deve pegar Doutor Jivago, é Irina quem deve infiltra-lo dentro da União Soviética, já que o lugar simplesmente é contra a sua publicação por ter sentimentos anti-URSS. 

Irina, porém, não tem nenhuma experiência nesse lado de espionagem e quem deve ensiná-la é Sally Forrester. 
Com certeza, sem sombra de dúvidas alguma, Sally é minha personagem favorita. Ela é complexa, está sempre mudando de personalidade e sua única motivação é saber quem ela é de baixo da figura que está apresentando.
A mesma também protagoniza o melhor romance de dentro da história, romance que leva todos os leitores ao delírio. 

Além de Irina e Sally, que serão duplas maravilhosas, temos as outras protagonistas que eu nunca poderia deixar de lado, as datilógrafas. Elas são mulheres, que estudaram, lutaram por seus direitos, e assistem os altos cargos serem adquiridos por homens que na maior parte do tempo, tem menos qualificações que elas, mas por serem mulheres, acabam se tornando datilógrafas. 
Elas não são o maior foco do livro, porém, seus pensamentos e seus instintos revolucionários fazem com que seus capítulos sejam os mais interessantes e são os que, com certeza, fazem com que qualquer mulher se sinta representada pela luta feminista. 

"Até as palavras na cabeça de alguém poderiam ser uma ofensa passível de prisão naqueles tempos sombrios."

No início da resenha, eu comentei que o que me fez gostar tanto dessa história é que ela era pouco ficcional, o que é verdade. Muitos personagens icônicos aparecem, muitos diálogos são reais e a própria missão de Irina aconteceu, então é impossível não se chocar com a veracidade da obra. 

Porém, dando uma opinião extremamente sincera e que pode magoar alguns fãs dessa leitura, é que eu não acho que o foco do livro seja a realidade, mas sim o romance e as protagonistas femininas, o que pra mim não é mesmo um problema, é a solução. O lado histórico é só um plano de fundo, em alguns momentos rasos, o que poderia ter sido trabalhado melhor é claro, mas a obra é sobre mulheres e para mim Lara Prescott, autora do livro, merece todos os aplausos exatamente por isso. 

É um livro de uma mulher brilhante sobre mulheres brilhantes que revolucionaram a nossa história. 

A escrita de Lara pesa muito nos meus comentários, porque é excepcional, é dramática e consegue dar a voz que as heroínas de seu livro precisam, não tenho mesmo comentários negativos - além do fato de eu ter preferido uma maior elaboração na parte histórica, mas é algo muito pessoal -, porque elogios é o que essa obra precisa!

Como disse, pretendo publicar ainda na próxima semana uma postagem só sobre os personagens desse livro, mas contando quem eles são na realidade, fora do ficcional de Prescott. A postagem terá leves spoilers, porém, acho que seria muito legal se vocês gostarem do livro, ler o que vou escrever, porque é sempre divertido conhecer melhor esses ícones do século XX.  

Obrigada por lerem até aqui! Estou muito feliz que Os Segredos que Guardamos é minha resenha de retorno ao blog, espero que tenham gostado! 

Um grande beijo e vários abraços à distância! 

Comentários