Quarentenou


Eu pintei meu cabelo. 
Eu pintei meu cabelo de roxo.
Sim, eu sempre quis ser a Ravena.

Ouvi dizer que estava melancólica, que - quase - entrei em um estado de petrificação, poderia mudar o ambiente com o meu humor facilmente e que o fim desse sentir estava tão longe quanto o fim da quarentena. E eu não me importei, ou não me importo mais depois de estar há um mês na mesma posição. De fato, a melancolia virou meu maior sentimento e, também, meu maior conforto incrivelmente.

Percebi que algo estava estranho quando eu pintei meu cabelo. E eu pintei meu cabelo de roxo.

Tudo bem, você pode achar isso completamente irrelevante até porque provavelmente é. Mas não pra mim, e não porque estamos tratando do meu cabelo, mas porque estamos tratando de mim. Isso só é extremamente estranho porque meu histórico capilar é de quem tem medo de absolutamente tudo.

É claro que o Mcfly me fez querer ter cinco cores no cabelo quando eu ainda era criança, o problema foi quando essa possibilidade surgiu, eu pirei. A adolescência (período em que eu poderia raspar a cabeça sem meus pais reclamarem) traz pensamento desconfortantes para a maior parte das pessoas, e quando elas estão no ensino médio... só tristeza mesmo! Meu maior medo era pintar meu cabelo de alguma cor (porque diga-se de passagem, eu já fiz mechas loiras sem saber realmente o motivo), uma cor que eu olhasse no espelho e desmaiasse de vergonha, porque esse é o sentimento: a vergonha.

O que também não significa que meu humor estava querendo uma tintura inovadora, ele não queria mesmo, mas sempre acreditei que as aparências mostram nosso eu, quem somos e o que acreditamos. Então agora eu não fico sem meu cabelo a cima do ombro e enrolado, e juro, existe motivos para isso.

O ponto dessa enrolação toda é: eu pintei meu cabelo de roxo na segunda semana da quarentena.

E o que você fez na primeira?
Não é para ser um diário, mas imprimi todos os artigos e materiais possíveis da minha faculdade para estudar durante esse período.

Chutem quantos eu li...
Um. E porque eu - meio que - fui obrigada.

Na terceira semana, (sim, já com cabelo roxo e um pouco arrependida mas completamente leve por ter realizado essa transformação) eu já estava totalmente descrente da vida. A CNN Brasil teve estréia logo no início da pandemia e foi meu maior vício nos primeiros dias, mas depois também foi bem estressante e um pouco traumático. Então eu chorei, chorei umas três vezes e em dias aleatórios, mas chorei e chorei muito, não sei o motivo, sinceramente. Um dia acordei de madrugada chorando e me sentindo sem ar. Ansiedade. Agora eu entendo o motivo.

Desde pequena sofro com problemas de ansiedade e, bizarramente, a minha ansiedade tem um motivo e eu sei exatamente qual é. Sei como ocorre, onde ocorre e por qual motivo ocorre, e isso eu tenho muito o que agradecer a minha psicóloga e ao meu psiquiátrica. E, inevitavelmente, mesmo entendendo muito sobre o meu eu, eu tive diversas crises de ansiedade. Esse é o motivo de eu estar escrevendo isso tudo, não tem a ver com o meu cabelo (que agora é roxo), tem a ver com o que sentimos nesse período.

Eu sinto que estou vivendo, que estou passando por um momento que agrega mais ao meu espiritual do que qualquer outra coisa e, mesmo que soe melancólico como dizem as línguas por aí, eu deixo tudo acontecer. Se isso significa passar o dia todo no sofá vendo filme ou apenas olhando a televisão, qual é o problema? Por que a gente precisa, em um período tão escuro como esse que estamos vivendo, nos cobrarmos a estarmos fazendo algo? A terminar um livro? A fazer exercício? A não comer aquele brigadeiro que sonhamos na noite passada? Qual o problema? E eu percebi que o que me fazia melhor, era responder que não havia problema, e realmente não há.

A situação está aí, agora vivemos com nós mesmos em um espaço que pode ser pequenininho ou pode ser enorme, o fato é que estamos sim (e devemos ficar em casa, por favor) em quarentena e nos cobrarmos quando isso tudo está acontecendo é cruel com nós mesmos.

Não se cobrem, sintam, existam, façam coisas, não façam coisas, estejam bem com sigo mesmos a cima de qualquer outra situação. (e pintem o cabelo de roxo se for possível:)

Estamos todos nessa, e vai acabar.

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