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Blog Conheça o novo Cores 07/02/2019

Medicina dos Horrores | Resenha

Foto: Momentum Saga


Olá!


Tudo bem?


Ainda estamos em outubro e aproveitando a recente leitura que fiz, resolvi trazer mais uma resenha de arrepiar para comemorarmos o Halloween. O livro Medicina dos Horrores da historiada americana Lindsay Fitzharris nos foi enviado por nossa querida editora parceira Intrínseca e agora vim contar tudo que achei a respeito dessa obra. 



Autor(a): Lindsay Fitzharris
Editora: Intrínseca
Gênero: Não Ficcção
Número de Páginas: 320
Sinopse: Em Medicina dos horrores, a historiadora Lindsey Fitzharris narra como era o chocante mundo da cirurgia do século XIX, que estava às vésperas de uma profunda transformação. A autora evoca os primeiros anfiteatros de operações — lugares abafados onde os procedimentos eram feitos diante de plateias lotadas — e cirurgiões pioneiros, cujo ofício era saudado não pela precisão, mas pela velocidade e pela força bruta, uma vez que não havia anestesia. Não à toa, os mais célebres cirurgiões da época eram capazes de amputar uma perna em menos de trinta segundos. Trabalhando sem luvas e sem qualquer cuidado com a higiene básica, esses profissionais, alheios à existência de micro-organismos, ficavam perplexos com as infecções pós-operatórias, o que mantinha as taxas de mortalidade implacavelmente elevadas. É nesse cenário, em que se considerava mais provável um homem sobreviver à guerra do que ao hospital, que emerge a figura de Joseph Lister, um jovem médico que desvendaria esse enigma mortal e mudaria o curso da história. Concentrando-se no tumultuado período entre 1850 e 1875, a autora nos apresenta Lister e seus contemporâneos e nos conduz por imundas escolas de medicina, os sórdidos hospitais onde eles aprimoravam sua arte, as “casas da morte” onde estudavam anatomia e os cemitérios, que eles volta e meia invadiam para roubar cadáveres.

Hoje em dia pensamos que procedimentos cirúrgicos são super tranquilos e fáceis de serem realizados, as taxas de morte estão cada vez mais baixas e temos um verdadeiro arsenal de produtos, medicamentos e outros recursos que nos impedem de contrairmos uma infecção ou que ajudam no processo de cicatrização, não é mesmo?  Mas sempre foi assim? A pesquisadora, historiada e escritora Lindsey Fitzharris se propôs a mergulhar a fundo na história da medicina cirúrgica, desde seus primórdios até as técnicas mais modernas que conhecemos hoje em dia em que a história da medicina se cruza diretamente com a de um jovem médico e cientista chamado Joseph Lister que dedicou toda a sua vida a pesquisar, implementar e evoluir os procedimentos cirúrgicos até chegarem nos estágios em que conhecemos hoje. 

Não se enganem: Todo o prestígio em ser um cirurgião é recente. Lá em 1850, o quadro era bem diferente e os cirurgiões eram comparados como açougueiros, muitas vezes trabalhavam por horas seguidas e eram muito mal remunerados - quando ainda recebiam algum salário por isso. O cenário cirúrgico 150 anos atrás era catastrófico em que realizar uma operação era praticamente a última opção a ser adotada para a resolução de uma doença e, quando realizada, dava errado e o paciente morria. Os hospitais também eram caóticos: Na época não existia esterilização dos instrumentos, troca de roupas de cama dentre os pacientes e qualquer outro método de higiene; a situação não podia ser pior: Se você fosse ao hospital, as chances de você contrair alguma bactéria e acabar morrendo eram maiores do que você se tratar em casa. Como disse, os cirurgiões eram trabalhadores braçais e sanguinários: Sem qualquer roupa de proteção, máscaras e instrumentos esterilizados, passavam horas realizando procedimentos brutais, amputando membros em anfiteatros lotados, abertos para a comunidade médica e científica acompanharem, em meio a sangue e dejetos. Por não existir anestesia na época, os pacientes eram amarrados nas macas improvisadas e desmaiavam por conta da dor proveniente dos procedimentos e da perda de sangue, que escorria livremente e sujava todo o recinto sem o menor cuidado. Médicos circulavam livremente pela "área cirúrgica" e muitos contraíam doenças e era muito comum que os cirurgiões morressem após algum tempo depois. 

Me perdoem pela descrição dos detalhes, eu sei que embrulha o estômago ler esse tipo de coisa, até porque para nós, hoje é impensável que cirurgias fossem realizadas de tal maneira já que hoje é tudo realizado de maneira tão limpa e consciente, mas esse é o tipo de relato que irão encontrar em Medicina dos Horrores; uma coisa irei dizer a vocês: Lindsay não deixa nada de fora e conta nos mínimos detalhes como eram realizadas as cirurgias em plena era vitoriana, no entanto, ainda que você seja uma pessoa sensível e que não tenha um estômago muito forte, é uma leitura riquíssima e que vai agregar muitos conhecimentos sobre a área médica. Sua escrita precisa beira à perfeição e você se sente como se estivesse lendo uma obra de ficção. A história é envolvente e muito "gostosa" de se ler (péssimo uso de palavras), mas ainda sim, recomendo evitar a leitura na hora das refeições porque em alguns momentos chega a ser repulsiva a leitura.




Em um cenário em que os médicos acreditavam que o pus era um processo de cicatrização natural do corpo e que os hospitais fediam e pessoas padeciam por conta da sépsis e a gangrena, por exemplo, surge um jovem médico chamado Joseph Lister que começa a se incomodar com os níveis altíssimos de mortes causadas por infecções generalizadas e inicia então um trabalho de pesquisa para encontrar uma forma para amenizar os efeitos negativos das cirurgias. Medicina dos Horrores se transforma numa espécie de "mini biografia" em que iremos conhecer os primeiros anos da vida de Joseph e a maneira com que o jovem entra no mundo da medicina e começa a trabalhar nas enfermarias dos hospitais. Joseph sempre foi considerado um médico "a frente" do seu tempo, pois o mesmo tratava seus pacientes de maneira humana, conhecendo melhor cada um deles e não se referindo a eles apenas pelas doenças que os levaram aos hospitais, atitude muito comum por outros médicos e cirurgiões que consideram seus pacientes como cobaias. 

Incomodado pelas condições precárias, Joseph que também era cientista, começa a observar na cidade e a buscar maneiras de melhorar a situação nos hospitais, principalmente o mau cheiro causado pelos corpos dos pacientes que não resistiam. Em meio as pesquisadas realizadas, o médico notou que o esgoto da cidade era tratado com ácido carbólico que ajudava na redução da emissão do mau odor. A partir de então o médico e cientista mergulhou a fundo em pesquisas até esbarrar em estudos realizados por ninguém menos que Louis Pasteur e então Joseph passa a adotar inúmeros procedimentos nas alas hospitalares: Os instrumentos cirúrgicos passaram a ser desinfestados utilizando o ácido carbólico e ele exigia que as roupas de cama dos leitos e os uniformes dos médicos fossem trocadas com frequência, evitando o acúmulo de substâncias como sangue, pus e dejetos. As janelas dos hospitais passaram a ser abertas e agora circulava ar entre os cômodos. Em poucos meses o cheiro podre e pungente do hospital em que trabalhava havia sumido e as taxas de morte por infecção caíram drasticamente. Em meio a todo o avanço, a grande barreira foi convencer os demais médicos e cirurgiões a adotarem essas medidas pois eles não acreditavam em germes e infecções. Em congressos realizados nos EUA e Londres, Joseph foi acusado de charlatanismo e que suas técnicas não eram eficientes. Lentamente, a eficácia dos tratamentos foram espalhadas pelos hospitais que perceberam que as taxas de morte estavam diminuindo e também a cicatrização estava mais rápida. Josephe Lister foi uma figura tão emblemática para o mundo da medicina que seu nome estampa a marca de um dos anticépticos bucais mais conhecidos do mundo, o Listerine. Os inúmeros estudos publicados por Lister serviram como guia para a modernização de procedimentos, além da adoção de suas técnicas de higienização e também a implementação de outras.

Como citei acima, Medicina dos Horrores é um livro que vai te deixar com aquele peso no estômago pois é muito difícil ler sobre como as cirurgias eram realizadas ali em meados de 1800, mas o trabalho de Lindsey é simplesmente impecável em trazer inúmeros conhecimentos até para  quem não é da área da saúde, assim como eu. Fiquei bem impressionado com os relatos do livro e é notável a força de vontade que Joseph teve para levar suas ideias para frente. Ele enfrentou muitos obstáculos e por várias vezes foi desacreditado, mas levando em consideração, graças as suas técnicas, inúmeras vidas foram salvas apenas ao adotar técnicas básicas de higienização.



Nota: 4,0 / 5,0 
* Livro cedido em parceria com a editora Intrísenca *



Com esse texto, finalizamos o nosso mês de outubro e nossos especiais de Halloween. Espero muito que tenham gostado da resenha de hoje e não se esqueça de deixar seu comentário e contar pra mim o que achou.

Nos vemos aqui no próximo sábado ou lá no Startes