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Blog Conheça o novo Cores 07/02/2019

Vox | Resenha

Foto: Paraíso das Ideias 

Olá!

Tudo bem com vocês?

Essa resenha finalmente saiu! Eu nem acredito. Se não me engano, lá em janeiro quando estava fazendo as minhas metas de leituras para o ano, coloquei o livro Vox da autora Christina Dalcher como uma das distopias obrigatórias para 2019. Os meses foram passando, fui empurrando a leitura com a barriga, mas finalmente as férias chegaram e eu consegui pegar para ler, o que me deixou muito feliz em finalmente riscar mais um livrinho da minha lista (vou ignorar totalmente o fato de que ainda me faltam aproximadamente uns 50 livros para finalizá-la e já estamos em setembro). 

Hoje vim falar um pouquinho pra vocês sobre. Vamos lá?


Autor(a): Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Gênero: Distopia, drama
Número de Páginas: 319
Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo... Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir... mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Eu já comentei várias vezes que através da criação de uma distopia, os autores conseguem trazer críticas a um sistema governamental, uma situação que vivemos ou uma maneira com que a sociedade ou determinado grupo se comportam a fim de abrir a discussão a respeito de temas que, muitas vezes, são extremamente difíceis de serem abordados. Vox segue por esse mesmo estilo e logo de cara sua história se assemelha muito com um dos melhores livros do século, O Conto da Aia.

- (…) É uma organização com enorme peso religioso. - Jackie se inclinou pela janela, para ver melhor. - E são principalmente homens. Homens conservadores que amam seu Deus e seu país. - Ela suspirou. - As mulheres, nem tanto.

Em Vox, após a eleição de um presidente que possui uma forte ideologia religiosa e extremista, o governo norte americano decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. As palavras são contadas a partir de um marcadores que carregam no pulso e após o limite ser atingido, as mulheres passam a receber choques que aumentam de acordo com o número de palavras excedidas.Dessa forma, elas aprenderam a viverem em silêncio, pensando muito bem antes de gastar a sua cota diária de palavras e passam a se comunicar através de gestos, quase como uma lingagem de sinais. Elas também precisaram sair de seus empregos, tiveram seus passaportes conficados, os livros foram guardados, foram proibidas de escrever e gerar qualquer conteúdo;  todo o acesso à informação é ditado e controlado por seus maridos, sendo suas unicas obrigações cuidar de seus filhos e dos afazeres de casa. Os alunos foram separados em escolas por gênero e para as crianças de pais do mesmo sexo, foi dado à tutela aos avós ou alguém responsável, enquanto seus pais eram levados para campos de concentração (exatamente esse termpo que utilizam no livro) onde eram "reabilitados".  Na escola das meninas, as alunas aprendem apenas a fazer contas, ver horas e a cuidar da casa e dos filhos, enquanto, para os meninos, eles recebiam uma rígida educação religiosa e eram vistos como "puros e salvadores". 

A protagonista da história, Jean McClellan, uma cientista renomada e fonoaudióloga se vê em um inferno particular e sem qualquer expectativa de mudança. Seus dias, outrora repletos de trabalho se reduzem a cuidar da casa, seus filhos e o marido. AO mesmo tempo, ela começa a ensinar a sua jovem filha a como se comportar nessa nova sociedade em que as mulheres são silenciadas. Um dia, Jean recebe uma inesperada visita: O presidente dos EUA a convoca para a retormar ao trabalho de pesquisa que a mesma já fazia na área para salvar o irmão do presidente, que sofre de uma terrível e misteriosa doença. Ela então recebe o status de "mulher livre", sua pulseira é retirada e não existe mais limite de palavras: Ela recebe acesso ao seu antigo laboratório e uma equipe, no qual devem trabalhar para descobrir a cura da doença. Enquanto Jean e seus outros parceiros seguem com o projeto, descobrem a terrível verdade a respeito da "convocação" do presidente, cuja pesquisa pode desencadear consequências graves e definitivas para a população e passam a trabalhar sob disfarce, arquitetando um plano para conseguirem derrubar o presidente e por um fim nesse regime totalitário. 

- Você não tem nada a ver com isso, mãe. A decisão é do meu pai.
Talvez tenha sido o que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como as crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível.

A história, ainda que se assemelhe com O Conto da Aia e trate principalmente a repressão das mulheres, possui muita identidade, o que é muito bom. É um livro altamente polêmico que discute a junção da religião em ambiente político, transformando algo que, em teoria, deveria ser para todos em um regime totalitário, separatista e injusto. Em Vox, os ideais políticos e religiosos se misturam e criam todo esse ambiente que subjulga, tortura e desvaloriza principalmente as mulheres, mas também qualquer um que foge dos padrões impostos pela religião. Existem perseguições muito claras a negros, gays, pobres e pessoas que seguem religiões diferentes e o livro cumpre seu papel social de expor os problemas em que muitas vezes fingimos não ver. É uma história que se torna muito desesperadora de ler e altamente visceral. Ao mesmo tempo que se trata de uma distopia, podemos interpretar sua premissa como uma metáfora em que as mulheres lutam para serem ouvidas em uma sociedade machista e sexista. Outro ponto de reflexão que tiro é que o fato de haver uma limitação da quantidade de palavras é de que as mulheres precisam sempre provar tudo, estarem embasadas e estarem certas do que estão falando, caso contrário, não serão ouvidas, enquanto que para os homens, existe a liberdade de falar tudo, sem preocupações, restrições ou filtros. Vox nos passa lições muito fortes e uma mensagem clara de que a opressão acabou e de que as mulheres podem - devem e vão - conquistar seu espaço de fala.

Eu realmente amei a história, as metáforas e ensinamentos que Chrstina utilizou para a criação de Vox. Quanto à isso, eu realmente não tenho críticas e acho um dos livros mais autênticos e geniais dos últimos anos, no entanto, senti que a autora pecou em alguns detalhes duranta a execução da história. Todo o desenrolar da narrativa se desenvolve muito rápido e algumas coisas não consegui compreender totalmente o motivo de terem acontecido. O livro tem um pouco mais de 300 páginas e todos os capítulos são muito curtos, com duas ou três páginas no máximo e acontecem tantas reviravoltas e tantas outras coisas em um intervalo tão curto de páignas que fica difífil de acompanhar. Eu fiquei um pouco perdido com a narrativa dos personagens, várias vezes eles entram em momentos de divagação e lembranças do passado, no entanto, não ocorre nenhuma separação ou indicação na narrativa disso e várias vezes fiquei pensando se estavam lembando do passado ou se de fato estava acontecendo. Na questão dos personagens, nenhum se destacou, em minha opinião. Eu realmente não me senti conectado con nenhum deles e tampouco senti empatia por suas motivações e histórias pessoais e acredito que o fato do livro se desenvolver muito rápido, não dê o tempo certo para os leitores se acostumarem com os personagens. 

Apesar dos problemas que encontrei durante a narrativa, avalio Vox como uma experiência muito satisfatória e enriquecedora. O livro é bem frenético e você dificilmente se sente entediado, ao menos, foi o que senti, mesmo não tendo me conectado com os personagens. Acredito que seja um livro reflexivo e que traz inúmeros conhecimentos sobre todos esses temas, mas que pecou na execução e estruturação da história. O grande destaque da obra escrita por Dalcher vai para a maneira com que a autora criou o fanatismo religioso e os ideiais de "família tradicional" como ferramenta a se correlacionar com a nossa sociedade atual e a maneira com que ainda as mulheres são tratadas. Vox é um grito que rompe o silêncio e aponta a verdade em nossa cara. Com certeza foi uma ótima leitura e que recomendo para todos, principalmente para as pessoas que se interessam a entender melhor sobre como sociedades extremistas e regimes totalitários surgem.

Nota: 3,5 / 5,0 


 A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.