A Maldição da Residência Hill: Livro x Série

20 de out de 2018

Olá, meus queridos! Como estão hoje? Espero que bem. Estão bem confortáveis e estão com um tempinho reservado para mim hoje? Já aviso que a resenha de hoje vai ser beeeeem longa, mas prometo que é por uma boa causa.

Finalzinho de semana chegando e o que combina com a noite de hoje? Isso mesmo, ponto para quem disse "maratona". No último dia 12 chegou ao catálogo da Netflix a série "A Maldição da Residência Hill", do livro homônimo lançado em 1959. Eu assisti os 10 episódios e finalizei a leitura do livro e conto pra vocês todos os detalhes agora. Vamos lá!





Nome Original: The Hauting of Hill House | Ano de lançamento: 2018 | Gênero: Terror, Suspense | Direção: Mike Flanagan

A gente sabe bem que após emplacar "La Casa de Papel" ano passado, a nossa amada Netflix não conseguiu trazer nenhum outro conteúdo que prendesse a atenção dos telespectadores e conquistasse a crítica especializada, apesar das inúmeras tentativas de empurrar guela abaixo conteúdos pouco atrativos e séries que não convenceram. Eis que surge "A Maldição da Residência Hill" para trazer a Netflix para o topo e para a boca do povo, trazendo muitos sustos, personagens icônicos e uma história sensacional.

Num primeiro momento, a sinopse da série nos entrega a já conhecida "receita do bolo" para os conteúdos do gênero. Somos apresentados a família Crain, cuja profissão consiste em comprar casas velhas para reformá-las e vendê-las adiante. Eles decidem, então, comprar a Mansão Hill, abandonada por mais de 80 anos para passar o verão com seus filhos enquanto fazem a reforma. Para Olivia, Hugh e seus cinco filhos, seria a oportunidade perfeita de aproveitarem as férias escolares dos filhos para desfrutarem dos inúmeros cômodos da mansão, porém, logo eles percebem que não estão sozinhos na casa, sofrendo de alucinações, sonhos bizarros e começam a serem perseguidos por figuras sobrenaturais. Quanto mais tempo a família fica na casa piores são as experiências vividas, principalmente para a matriarca da família, Olivia, que começa a sofrer crises de dor de cabeça. A terrível última noite que a família passa na mansão Hill culmina em uma tragédia e o pai se vê obrigado a fugir com seus filhos no meio da noite para nunca mais voltar. Anos depois os irmãos são obrigados a enfrentarem os terríveis eventos que presenciaram durante sua estadia na mansão Hill em busca da verdade e para salvar a vida de um dos integrantes da família que corre risco de vida.


A série chegou quietinha ao catálogo e num primeiro momento parece ser apenas "mais uma obra de terror" previsível e sem graça, o conhecido "mais do mesmo", mas quanto mais você assiste, mas você percebe o quão imersivo e envolvente foi o roteiro criado por Mike Flanagan. Não se engane, caro leitor, o roteiro da série é confuso e complexo e você precisa estar ligado para captar a mais sutil das referências enquanto vamos passeando pelo passado dos personagens e os fatídicos eventos que aconteceram na casa, além de vermos o presente e a forma com que cada um deles lida com as cicatrizes deixadas pela experiência. Algumas cenas são totalmente desconexas e avulsas e é extremamente necessário que você esteja atento para captar as nuances deixadas pelo diretor, porém, conforme os episódios vão sendo exibidos, as peças se encaixam e você percebe a sagacidade com que o roteiro foi escrito. A série possui 10 episódios de 40 à 50 minutos e isso dá a Mike tempo suficiente para situar os personagens na história, não só mostrando a infância de cada um deles, mas também demonstrando os danos psicológicos causados em cada um deles e como eles lutam diariamente para ter uma vida normal, mas a Mansão Hill sempre está presente em suas vidas. A série, em minha opinião, é divida em dois momentos distintos: A primeira parte da série (que vai até o 5º episódio, mais ou menos) é utilizada para apresentar os personagens e suas particularidades, como medos, anseios e mostrar de forma particular como a casa afetou cada um deles. A segunda parte é totalmente focada na conclusão da história e a solução de todo o mistério que rodeia a família por todos esses anos.


A fotografia e cenografia da série é DESLUMBRANTE, fiquei impressionado com a riqueza de detalhes na construção de cada um dos cômodos da casa, além de uma belíssima iluminação, garantindo as mais lindas e assustadoras cenas. Falando em assustador, o que a tensão construída em cada um dos episódios? Eu ficava angustiado e agoniado e mesmo nas cenas de diálogos aparentemente inofensivos, há sempre uma silhueta, um rosto, uma sombra em algum lugar da tela e você nunca sabe quando de fato vai dar ruim e aparecer algo! Algumas das criaturas que aparecem em alguns momentos da série são totalmente aterrorizantes, macabras e estranhas.

Obviamente, um bom roteiro e direção de arte não seriam nada se a escolha para os papéis não fossem tão boas. A excelente atuação de Carla Gugino e de Henry Thomas que deram vida aos pais foram essenciais para o sucesso da série. Ambos souberam como conduzir muito bem a história, principalmente Olivia, o destaque de Mansão Hill, em minha opinião. Já o elenco mirim não deixou a desejar e mesmo com personagens tão densos envoltos em uma história pesada como essa, fizeram bonito e foram capazes de emocionar e angustiar aos telespectadores. Já na fase adulta dos mesmos, quem se destaca para mim foi Kate Siegel (que inclusive protagoniza o filme Hush: A morte ouve, outra produção exclusiva da Netflix e que também é dirigido por Ken.) que interpreta Theodora, a irmã do meio. Os demais possuem atuações regulares e pertinentes aos papéis. O que mais me agradou de fato é a humanização dada a cada um deles, é impossível não sentir empatia ou se compadecer com cada uma das histórias e seus traumas e Mike nos mostra que é possível sim fazer uma história de terror original e boa com personagens reais e palpáveis.


A Maldição da Residência Hill vai muito além de uma história de terror de uma casa mal assombrada: É uma história sobre amor, sobre culpa e sobre como lidar com os eventos do seu passado e seguir adiante. O enredo é profundo, brilhante e extremamente original e envolvente. Ao final do 10º episódio você se sente conectado a casa e as pessoas, mas te aviso: Cuidado com a moça do pescoço torto a hora que for dormir.

A Assombração da Casa da Colina - Shirley Jackson
Tìtulo Original: The Hauting Of Hill House
Autor(a): Shirley Jackson
Ano de Publicação: 1959
Editora: Suma de Letras
Gênero: Suspense, terror
Número de Páginas: 236
ISBN: 9788556510631
Sinopse: Vista por mestres como Stephen King e Neil Gaiman como a rainha do terror, Shirley Jackson entrega um livro perturbador sobre a relação entre a loucura e o sobrenatural. Sozinha no mundo, Eleanor fica encantada ao receber uma carta do dr. Montague convidando-a para passar um tempo na Casa da Colina, um local conhecido por suas manifestações fantasmagóricas. O mesmo convite é feito a Theodora, uma alma artística e “sensitiva”, e a Luke, o herdeiro da mansão. Mas o que começa como uma exploração bem-humorada de um mito inocente se transforma em uma viagem para os piores pesadelos de seus moradores. Com o tempo, fica cada vez mais claro que a vida, e a sanidade, de todos está em risco.

"Não fico depois de pôr o jantar", a sra. Dudley prosseguiu. "Não depois que começa a escurecer. Vou embora antes de a escuridão chegar. 

Apesar de nunca ter tido contato com a escrita da Shriley, já havia ouvido falar sobre suas histórias e por sua fama em ser a "Rainha do Horror", não é por menos que Stephen King e Neil Gaiman recomendam suas histórias. Finalizei a série e na sede por querer saber mais da casa, comprei o livro e fiz a leitura em dois dias (o livro é curto, não me julgue) e logo de cara pude perceber a mudança na história escrita em 1959. Dessa vez não temos a família como plano principal e sim o Doutor Montague, um especialista em atividades sobrenaturais que resolve alugar a Mansão Hill juntamente com um grupo de pessoas a fim de passar alguns dias na residência e realizar diversos estudos para comprovar se de fato ela é mal assombrada, assim como os moradores do pequeno vilarejo insistem em dizer. O clima de apreensão é o mesmo presente na série que optou por manter os mesmos nomes dos personagens utilizados no livro, contudo, no livro eles não fazem parte da mesma família ou são irmãos, por exemplo.

Foto: Gabriel Ferrari
Preciso confessar que achei a escrita de Shirley um pouco confusa e, em diversos momentos, me senti perdido durante a narrativa, sem saber se a cena em si fazia parte da história ou se faziam parte de fantasias e delírios dos personagens que aos poucos vão sendo afetados pela perturbadora casa. Eu não digo que o livro é uma história "tradicional" de fantasmas, pois ao contrário de diversos livros do gênero, em momento algum temos a aparição dos mesmos, mas os já tradicionais elementos como correntes de ar, portas batendo e risadas nos corredores estavam presentes. Em suma, achei um tanto quanto previsível.

A casa era repugnante. Estremeceu e pensou, as palavras vindo livremente à sua mente, a Casa da Colina é repugnante, é doente; vai embora daqui.

A narrativa vai sendo construída nesse clima de tensão e suspense, mas senti falta de coerência em alguns pontos. Shirley opta por aprofundar o passado dos personagens e os motivos pelos quais aceitaram fazer parte desse experimento, do que narrando as aventuras deles em si. Talvez tenha sido proposital a criação de uma história focada no "terror psicológico", mas me decepcionei um pouco, não posso deixar de comentar. Ah, e oura coisa que me incomodou DEMAIS enquanto lia é que a edição brasileira resolveu manter o padrão americano de narrativa, demarcando as falas dos personagens com aspas inseridos no próprio parágrafo e não utilizar o travessão, como conhecemos aqui. Não é uma falha no livro em si, mas em minha opinião, a leitura se torna muito mais fluída e agradável dessa maneira.

Foto: Gabriel Ferrari

Em suma, Shirley entrega uma história de terror morna, se compararmos com as demais histórias de casas mal assombradas que temos por aí. A falta de ação no livro deixa tudo muito morno e monótono e alguns diálogos entre os personagens beiram ao infantil, contudo, preciso destacar que o fato de em momento algum os personagens verem algo contribui muito para o clima de apreensão, presente do início ao fim da narrativa, uma verdadeira brincadeira com seu psicológico. Mesmo aquém do esperado, recomento a leitura, principalmente para poder comparar com a série.

A própria casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra as colinas, encerrando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, as paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho. 

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Afinal, qual o melhor?

Já tivemos essa conversa outras vezes aqui em que chegamos a conclusão que as obras são de plataformas diferentes e, obviamente, precisam sofrer modificações para se adaptarem melhor ou para a televisão, ou para as páginas de um livro. Ambas as narrativas funcionam para o público a que se indica, mas se eu precisar escolher entre uma e outra, irei optar pela adaptação da Netflix. A história da família ao meu ver tornou tudo muito plausível de acontecer e foi deveras interessante ver a forma como o diretor desenvolveu cada um dos personagens: O crescimento de cada um deles é absurdo e você se torna refém da história. Porém, vale a pena destacar que, apesar de confusa em alguns momentos, Shirley escreve de maneira muito profissional e as descrições dela são maravilhosas onde você quase consegue enxergar a cena se materializando em sua frente. Ambas são experiências muito válidas para você que gosta do gênero e, independente da sua escolha, saiba que você estará em ótimas mãos.


Notas:
Série: 5/5
Livro: 3,5/5


11 comentários:

  1. Oi Gabriel. Engraçado como muitas vezes eu prefiro as produções visuais do que o livro. Tendenciosamente, livros do genero costumam ser arrastados porque os autores perdem muito tempo na construção do espectro sombrio. Pela sua resenha, percebo que é bem isso o que acontece e a autora acaba perdendo o rumo na hora de finalizar a narrativa.
    Fico em dúvida sobre ler, mas ansiosa para assistir.
    Beijos.
    Blog: Fantástica Ficção

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    1. Olá, Jessica, tudo bem?

      Exatamente isso que acontece. O livro tem uma ótima premissa, mas acho que pecou muito entre a ideia e a concepção do mesmo. Minha dica é começar pela série, irá se apaixonar!

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  2. Olá!!
    Eu só li um livro da autora até agora e achei uma escrita bem peculiar, apesar de um estilo diferente, gostaria de ler outros.
    Estou doida para assistir essa série, é bem do jeito que eu curto muito e a cenografia está demais!! Fiquei mais ansiosa!
    bjs

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    1. Olá!
      Esse de fato foi meu primeiro contato com a autora e não começamos muito bem! Hahahaha, mas com certeza irei dar uma outra chance.

      Beijos!

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  3. Oi! Tudo bem?

    Eu tenho um certo receio de assistir, ler, ouvir qualquer coisa de terror. Bem menina medrosa mesmo rsrs mas desde a série foi lançada, ela vem sendo bem comentada e com sua resenha entendi o porquê. Aparentemente, ela está maravilhosa!
    Só uma pena que para você o livro não tenha sido tão satisfatório a ponto de tirar um 5 como aconteceu com a série. Mas são coisas da vida rs

    Beijos,
    Blog Diversamente

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    1. Olá, tudo sim e você?

      Hahahahaha, eu te entendo, Maria, também sou bem medroso. Ironicamente, terror é meu gênero favorito, haja noites em claro! hahahah.

      A série é muito boa mesmo, além de ir muito além de uma história de terror, recomendo demais!

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  4. Mano do ceu Gabriel! Só de ver as imagens eu acho que meu sono a noite não será tranquilo, não tenho coração pra assistir isso não hahahaha
    Incrivelmente me identifico mais com o livro, a leitura eu toparia!
    Legal essa análise pq dá pra fazer essa separação de estilo que mais gostamos, no meu caso, o livro ganha!

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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    1. Aaaaaaa, você deu sorte porque eu peguei as fotos mais "leves" e que não revelavam muito sobre a série, porque tem cada cena que wow!

      Fico feliz que tenha gostado do post e depois me conta o que achou da leitura!

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  5. Oi Gabriel! Adorei esse post. Eu fiquei apaixonada por essa série e concordo com você no início pensei que ia me deparar com mais uma história de terror, mas a história se revelou muito mais do que eu esperava. Adorei essa adaptação e já soube que o livro é diferente. Gostei de suas impressões e espero ler em breve também!

    P.S: adorei o filme Hush <3

    Bjokas da Elo!
    http://cronicasdeeloise.blogspot.com/

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    1. Oi, Elô! Tudo bem?

      Muito obrigado por seu comentário, fico feliz que tenha gostado, eu amei demais fazer esse post, poderia ficar horas falando sobre a história! hahahah

      Eu também fui pego de surpresa com relação a série e ainda bem que foi de maneira positiva.

      Hush é bom demais, não é? ♥

      Grande beijo e bom final de semana!

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  6. Oi, Gabriel! AAAAAAA eu também adorei essa série! Concordo com a sua divisão sobre primeira e segunda parte, confesso que gostei mais da primeira, onde apresenta um personagem a cada episódio. A segunda parte achei que foi um pouco enrolada, mas gostei muito do desfecho. É uma ótima série, que se destaca dentro do gênero. E também é muito triste, nossa :( Sobre o livro, eu sabia da existência dele, mas é a primeira resenha e comparação que vejo dos dois. O romance parece bem diferente da série mesmo, mas os elementos mais interesssantes estão na produção da Netflix. Como sou medrosa e assistir a série já foi um sacrifício, fico só com ela mesmo! Hahaha. Amei a resenha, parabéns!

    Beijos,
    http://abducaoliteraria.com.br

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