Lute como uma Garota | Resenha

6 de ago de 2018
Foto: Cecília Justen

Ei! Tudo bem?
Finalmente chegou o momento de trazer a vocês esse livro genial.

Foi uma leitura que eu precisei fazer rapidamente, sem nenhuma pausa, porque faria essa resenha para vocês. Entretanto, Lute como uma Garota é uma obra que foi feita para ser lida aos poucos, como se fosse uma pesquisa, porque é de um conhecimento enorme. 

Lute como uma Garota é muito mais do que uma capa bonita, e assim como qualquer outro livro feminista, merece nossa atenção.

Lute como uma Garota - Laura Barcella e Fernanda Lopes

Sinopse: Estamos vivendo novos tempos: a discussão sobre os direitos das mulheres não se concentra mais em grupos específicos e a luta feminista amplia seu debate na sociedade. Da violência contra a mulher à cultura do estupro, uma série de questões é tema de conversas frequentes na mídia e nas redes sociais. Mas como chegamos até aqui? Quem nos ajudou nessa trajetória? Lute como uma Garota reúne o perfil de figuras importantes da militância feminista, abrangendo das pioneiras do século XVIII às estrelas pop dos dias de hoje, além de nomes essenciais da luta no Brasil, apresentando um pouco de nossa história.


Foto: Andrea Justen

Páginas: 368 | Autor(a): Laura Barcella e Fernanda Lopes | Editora: Grupo Editorial Pensamento (Cultrix) | Gênero: Biografia

"Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sim sobre si mesmas." - Mary Wollstonecraft

Não sei nem por onde começar, pois diferentemente de todas as outras resenhas que eu já trouxe para vocês, dessa vez estamos falando de um livro que é quase um documentário. Lute como uma Garota é a junção de 60 mini-biografias de mulheres revolucionárias, mesmo que algumas não tenham se considerado feministas, todas elas fizeram ou fazem alguma coisa que muda completamente o nosso jeito de viver atualmente. 

Neste livro vocês vão encontrar fatos surpreendentes e histórias de tirar o fôlego, afinal, temos de Simone de Beauvoir até Beyoncé, de Malala até Clarice Lispector. E são com esses extremos, que a gente acha que não tem nada em comum, que a obra vai se moldando e apresentando motivos para a personalidade merecer a fama, o país de origem, o legado, sua história, algumas curiosidades e frases inspiradoras. 

Além disso, antes de iniciarmos as biografias, nós temos alguns textos para entendermos um pouco mais sobre o conceito de feminismo e o que é ser feminista, dois pontos muito importantes, já que muitas pessoas acabam mudando a ideia original e deturpando os ideais. Eu gostei muito de saber todas essas informações, pois muitas ideias novas acabaram aparecendo e eu senti que foi um real aprendizado. 

O feminismo, essa ideia de luta pela igualdade cívica e civil entre homens e mulheres, apareceu pela primeira vez em uma obra de um escritor francês, enquanto filósofos iluministas achavam que a igualdade entre os sexos era maluquice. Apesar de eu estar contando isso para vocês, a palavra feminismo chegou bem depois, e daí começamos a entender o que seriam as "três ondas do feminismo". A primeira é com a luta de melhores condições de trabalho e ao direito à educação, enquanto ao mesmo tempo "feminismo" era utilizado entre os médicos para dizer que os homens cuja virilidade havia se desenvolvido mal ou pouco. A segunda denunciava as desigualdades legais, culturais e questionava o papel da mulher na sociedade, entrando assuntos como divórcio, direito à propriedade privada, sexualidade, família, trabalho e procriação. A terceira é considerada uma continuação da "onda" anterior, mas mostra também os fracassos das propostas, surgindo as questões do sexismo, racismo e a opressão de classes. 

Com esse livro, todas essas "ondas" são mostradas claramente, mas milhares de mulheres precisaram ser cortadas da obra e, infelizmente, precisei fazer o mesmo nesta resenha. Porém, escolhi algumas e falarei para vocês os motivos de eu ter as escolhido. 

Sojourner Truth (1797-1883) | Estados Unidos

"Estou feliz ao ver que os homens estão conseguindo seus direitos, mas quero que as mulheres também consigam os seus, e, enquanto a água se agita, vou entrar nesse lago."

Escolhi Soujorner Truth por ser abolicionista e por sua representação na justiça americana, Por que eu estou falando isso? Ela nasceu Isabella Baumfree, e tem seu nome significando "peregrina", pois foi escrava  e vendida quatro vezes, tendo sofrido em todas as casas a qual pertenceu. A ativista nunca aprendeu a ler nem a escrever, já que era proibida a educação aos escravos. Quando, finalmente, foi-se abolida a escravidão em Nova York, Sojourner já havia fugido com sua filhinha, logo depois descobriu que seu filho de 5 anos tinha sido vendido ilegalmente. Por isso, levou o caso até a justiça e, felizmente, venceu, sendo um dos primeiros casos em que uma mulher negra ganhou de um homem branco. Depois dos acontecimentos, passou a viajar pelo país defendendo a abolição, os direitos humanos, os direitos da mulher, a reforma do sistema penitenciário e a proibição de pena de morte. Apesar de ter opiniões que foram consideradas ousadas, ela conseguiu defender a igualdade política para todas as mulheres, de todas as raças e repreendia os abolicionistas que não lutavam por direitos civis de mulheres negras. 

Nísia Floresta (1810-1885) | Brasil

"Certamente Deus criou as mulheres para um melhor fim, que para trabalhar em vão por toda sua vida."

Escolhi a brasileira por causa de sua influência como educadora no nosso país. Em 1824, a escritora começou a publicar artigos para o jornal Espelhos das Brasileiras, traduziu o livro Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens da autora Mary Wollstonecraft, e acabou se tornando a primeira mulher no Brasil a expor ideias de feminismo. Já em 1837, Nísia se mudou para o Rio de Janeiro e lá fundou o Colégio Augusto, escola para mulheres, onde divulgava suas ideias de educação feminina.

Elizabeth Blackwell (1821-1910) | Inglaterra

"Se a sociedade não admite o livre desenvolvimento da mulher, a sociedade deve ser remodelada."

Essa mulher exerce uma influência enorme em médicas, mesmo que elas não saibam disso. Elizabeth nem sempre quis ser médica, mas tudo mudou quando sua amiga morreu de câncer e falou que teria se sentido melhor se tivesse sido tratada por uma mulher. Por isso, Elizabeth se candidatou a diversas faculdades de medicina, mas foi rejeitada por ser mulher. Quando foi aceita, em uma faculdade de Nova York, acreditavam que sua inscrição se tratava de uma brincadeira. Terminou a faculdade depois de muito machismo e como a melhor da turma, mas foi recusada em todos os empregos em que tentava vaga. Por tal motivo, decidiu criar uma clínica para mulheres pobres, com sua irmã, que foi a terceira mulher a se formar em medicina nos Estados Unidos. Mais tarde, as duas fundaram a Faculdade para Mulheres de Nova York, dirigida exclusivamente para mulheres e direcionavam os serviços à população carente. 

Francisca Senhorinha (final do século XIX) | Brasil

"Queremos a instrução pura para conhecermos nossos direitos, e deles usarmos em ocasião oportuna."

Como não falar dessa mulher incrível que mudou o cenário do jornalismo? Francisca nasceu em Minas Gerais, teve duas filhas e se mudou para o Rio de Janeiro, onde abriu um colégio dedicado a ensinar meninas de classe média. Entretanto, foi antes disso que começou a trabalhar como jornalista, escrevendo para o jornal feminista O Sexo Feminino, tendo publicações semanalmente com informações sobre literatura e sobre a emancipação da mulher brasileira por meio da educação física, moral e intelectual. Até mesmo D. Pedro II e a Princesa Isabel recebiam seus exemplares. Depois da Proclamação da República, o nome do jornal foi alterado para O Quinze de Novembro do Sexo Feminino, em que criou uma coluna exclusiva para falar sobre o sufrágio feminino. 

Rosa Parks (1913-2005) | Estados Unidos

"Gostaria de ser lembrada como uma pessoa que queria ser livre [...] para que outras pessoas também fossem livres."

Talvez você já conheça essa mulher do seu livro de história, mas antes dela se recusar a se levantar do banco de um ônibus nos Estados Unidos, Rosa Parks fez muito mais. Rosa nasceu no Alabama, onde cresceu lidando com violência, injustiça e desigualdade social por ser negra, além de ter sido ensinada a dormir vestida para caso precisasse fugir de algum ataque da Ku Klux Klan. Sua família era extremamente ativista e defensora da igualdade racial. Esses casos fizeram com que Rosa crescesse querendo se juntar a luta, por isso, em 1930, participou de reuniões para ajudar os garotos de Scottsboro, nove meninos negros que estavam sendo condenados por uma falsa acusação de estuprarem duas mulheres brancas. Já em 1943, tentou participar da votação, mas foi rejeitada. Apenas em 1945 ela consegui seu título de eleitora. Por fim, em 1955, aconteceu o que seria um grande evento para história: Rosa voltava para casa de ônibus e o motorista pediu para que ela cedesse seu lugar para um passageiro branco, ela se recusou a levantar, e foi com essa ação que surgiu o movimento Boicote dos Ônibus de Montgomery, onde os negros protestaram contra a segregação nos assentos. Rosa aproveitou o movimento e levou a ideia para outras cidades para acabar com a segregação de modo geral.

Clarice Lispector (1925-1977) | Brasil

"Você é perfeitamente aceitável com os defeitos que tem. Um último conselho: seja você mesma, lembra?"

Não escolhi Clarice apenas por sua importância internacional, afinal, ela levou o Brasil literatura a outro nível, porém, a escritora foi muito importante para o nosso país escrevendo colunas feministas sobre "ser mulher". Em 1940, começou seu trabalho como jornalista e contista, indo às redações de jornais para oferecer seus textos, foi quando conseguiu publicar seu conto feminista Eu e Jimmy. Já em 1959, começou a escrever para o publico brasileiro sobre Simone de Beauvoir, sobre amor-próprio e sobre a mulher no mercado de trabalho.

Yoko Ono (1933- ) | Japão

"Se tivessem permissão, as mulheres expressariam seu verdadeiro eu, que é forte, talentoso e poderosos. Mas o mundo não queria saber disso. O mundo queria manter as mulheres submissas."

Por que Yoko Ono? Porque ela, apesar de muitos não acharem isso, é muito mais do que o romance de John Lennon. Ela foi a primeira mulher a ser aceita para estudar filosofia na Universidade Gakushuin, em Tóquio. Seu casamento com um Beatle rendeu muito mais do que a cara estampada em várias revistas, o casal, na verdade, utilizou dessa mídia para atuar contra a guerra do Vietnã, fez de sua lua de mel um evento, onde convidavam jornalistas a entrar no seu quarto e falar sobre a paz mundial, e lançaram um movimento com o intuito de acabar com os estereótipos que dividem as pessoas em raça, sexo e aparência. Depois da morte de Lennon, Yoko lançou diversos projetos em que luta por paz, por tolerância, por direitos das mulheres e luta contra o racismo. 

Alice Walker (1944- ) | Estados Unidos

"A forma mais comum de abdicar do poder é pensar que você não tem poder."

Confesso que apesar de toda força de Alice, minha escolha é resumida em uma coisa: A Cor Púrpura, livro que a fez ser a primeira mulher afro-americana a receber o Prêmio Pulitzer de Ficção. Entretanto, sua história também é voltada para momentos significantes. Alice nasceu em Georgia e estudou em escolas segregadas, onde precisou lidar contra o racismo. Aos 8 anos, seu irmão atirou em seu rosto, e isso a deixou com sérios problemas de visão. Alice se tornou uma menina solitária que vivia lendo e escrevendo para passar o tempo. Porém, no ensino médio, se tornou mais confiante e foi rainha do baile, tempo em que viu uma mulher ser assassinada por seu marido. Isso a fez tomar a decisão de se envolver com direitos civis. Aos 21, descobriu que estava grávida, e por pouco não se matou, já que o aborto era ilegal na época. Dois anos depois, continuou escrevendo e levando para seus textos os assuntos feministas que a rondavam desde a infância. Foi em 1982, que a Alice publicou A Cor Púrpura, mostrando a todos os seus ideais. 

Leila Diniz (1945-1972) | Brasil

"Em primeiro lugar, luto pela posição da mulher na sociedade. Isto quer dizer que luto por mim mesma. Em segundo lugar, luto por minha luta diária. Brigo por tanta coisa que nem sei."

Sabia de Leila como atriz, mas não fazia a menor ideia do poder que ela tinha, principalmente quando decidia falar palavrão e mostrar que era uma pessoa livre. A feminista nasceu em Niterói e fez um curso para se tornar professora na educação infantil. Quando dava aulas, Leila falava palavras como "bunda" e "cocô", e não usava a mesa de professor para se colocar como igual aos alunos. Em 1963, largou a profissão, porque uma menina com síndrome de Down foi recusada a estudar na escola em que trabalhava, por tal motivo, Leila se revoltou e foi trabalhar como atriz. Foi extremamente reconhecida por seus trabalhos e se destacava em entrevistas, porque falava palavrões, mostrava sinceridade, espontaneidade, falava sobre sexo e mostrava que era livre. Por isso, foi criticada e sofreu perseguição na ditadura, mesmo momento em que o Decreto Leila Diniz saia, em que proibia publicações contrárias à moral e aos bons costumes. 

Maria da Penha (1945- ) | Brasil 

"O poder público precisa investir na Educação para mostrar aos homens e mulheres que nós temos os mesmos deveres e os mesmos direitos. O homem tem que respeitar a sua mulher como pessoa humana." 

A última feminista não é menos importante, na verdade, Maria da Penha pode ser considerada uma das figuras mais importantes para a sociedade brasileira. Ela, que nasceu em Fortaleza, começou a estudar Farmácia quando conheceu seu primeiro marido. Segundo Maria, ele era muito ciumento e a prendia dentro de casa, então se separaram. Já no mestrado em São Paulo, ela conheceu o homem que seria seu segundo marido, Marco Antonio Heredia Viveros, com quem teve três filhas. Durante o namoro, a feminista disse que ele era simpático e prestativo, mas com o tempo ele mudou completamente, passando a agredir física e psicologicamente as filhas e a mulher. Maria, na época, tinha medo de se separar e achava que as agressões não seriam levadas a sério, já que não existia a delegacia da mulher. Em 1983, o ex-marido atirou em Maria e tentou provar a inocência amarrando uma corda no próprio pescoço, falando que foram assaltantes que haviam assaltado a casa. Maria saiu paraplégica do hospital depois de meses e, quando voltou para casa, Marco tentou mata-la novamente, mas foi salva pela babá de suas filhas. Foi quando as autoridades chegaram a conclusão que o ex-marido de Maria da Penha era o culpado. Assim então, ela conseguiu uma ordem na Justiça para poder sair de casa com suas filhas. Apesar da luta para que o ex-marido fosse preso, ele conseguiu um recurso que anulou o seu julgamento. Revoltada com a Justiça brasileira, ela recorreu para a Justiça internacional, sendo a primeira vez que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos acatou uma denúncia de violência doméstica. Infelizmente, Marco ficou preso por dois anos. Foi por causa de toda a situação que a Lei Maria da Penha foi criada em 2006, mas até hoje Maria da Penha luta pela igualdade e estimula as mulheres vitimas de violência doméstica a denunciarem seus agressores. 



Essas foram as mulheres maravilhosas que atuam ou atuaram vivamente em nossa sociedade, suas garras e forças nos ajudaram a chegarmos à atual luta e mesmo que ainda tenhamos um enorme caminho a se trilhar, não devemos desistir assim como elas não fizeram. 

"Defenda alguma coisa, se não você sucumbira a qualquer coisa. O poderoso carvalho de hoje é a noz de ontem que conseguiu resistir." - Rosa Parks

Pela primeira vez, estou achando 5 estrelas pouco.

Nota: 5/5 ♥ 
*Livro cedido em parceria com a Editora* 

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Um beijo e paz no coraçãozinho de vocês! ✩

3 comentários:

  1. "Estou feliz ao ver que os homens estão conseguindo seus direitos, mas quero que as mulheres também consigam os seus, e, enquanto a água se agita, vou entrar nesse lago."

    Sabe que na bíblia tem uma passagem que conta que existia uma fonte que muitos necessitados ficavam em volta pq diziam que quando as águas se agitavam o primeiro a entrar nelas teria sua cura?

    Achei incrivel esse livro, sou do time que defende a justiça, independente de feminismo ou não, acredito que equilibrio é tudo e me anima saber que a obra levou isso em grande consideração.

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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  2. Oiii, Ceci!
    Olha, esse é o tipo de livro que não estou acostumada a ler. Seria até bom para me tirar do comodismo, sem falar no conteúdo em si. Acho que mais livros assim deveriam ser publicados, a luta das mulheres nunca acaba e ler e conhecer biografias e mulheres que tiveram um impacto na história é um incentivo e a prova de que quando se luta, se pode mudar. Maria da Penha é uma das mais conhecidas no nosso país, né? Uma história de vida incrível e de muita coragem e superação. Dica de leitura muito mais que anotada.
    Um beijo
    http://eusouumpoucodecadalivroqueli.blogspot.com.br/

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  3. Oi Ceci! Eu AMO livros com essa temática, então antes mesmo de terminar a sua resenha já tinha adicionado esse título lá na minha wishlist, rs. Acho muito curioso essas mulheres que não se consideravam feministas, com toda certeza porque não conheciam o movimento com profundidade. Tenho inclusive, algumas amigas que também dizem não serem feministas, mas as suas atitudes falam o contrário. Enfim, o que quero dizer é que muitas vezes o feminismo é mal interpretado, sua imagem deturpada e por isso algumas pessoas preferem manter distância ao invés de se darem a chance de conhecer algo tão significativo, bonito e que só nos faz crescer. Tudo isso para concluir o por quê livros como este são tão importantes para nós. Amei a sua resenha, está incrível, e me deixou com muita vontade de conhecer essa obra. Parabéns!

    http://abducaoliteraria.com.br

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